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Quando a tecnologia chega ao campo, todos conseguem usá-la?

Foto do escritor: Alana Barbosa Nogueira
Alana Barbosa Nogueira
há 6 horas
4 min de leitura

Entre a inovação e a realidade dos pequenos produtores: os desafios para aproximar tecnologia, conhecimento e desenvolvimento rural no Norte de Minas


A agricultura brasileira atravessa uma transformação impulsionada pela incorporação progressiva de novas tecnologias aos processos produtivos. Contudo, diante de cada nova tecnologia, uma questão essencial nem sempre recebe atenção: todos os produtores dispõem, de fato, de condições para utilizá-la?


Essa indagação ganha relevância em regiões marcadas por limitações de infraestrutura, como o Norte de Minas Gerais, onde a tecnologia pode representar tanto um caminho para o aumento da produtividade quanto um instrumento de fortalecimento da permanência das famílias no campo. É nesse contexto que pesquisas da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Universidade Federal de Lavras (UFLA) aproximam dois debates frequentemente tratados de forma isolada: o desenvolvimento tecnológico da agricultura e as condições sociais para que essa tecnologia seja efetivamente incorporada pelos produtores.


Um exemplo está na pesquisa "Desenvolvimento de cafeeiros no Norte de Minas Gerais sob dois sistemas de irrigação", da UFV, que avaliou cafeeiros sob irrigação por aspersão e gotejamento e evidenciou diferenças de produtividade entre os sistemas, reforçando a importância da irrigação em uma região de clima adverso. A pesquisa demonstra que a eficiência de uma tecnologia depende sempre das condições em que é utilizada, sejam de infraestrutura, investimento ou conhecimento técnico. A questão deixa de se restringir a "qual tecnologia é mais eficiente?" e passa a envolver uma pergunta mais ampla: quais condições são necessárias para que o produtor consiga, de fato, utilizá-la?


Compreender essa pergunta exige olhar para a trajetória social das comunidades rurais do Norte de Minas. Durante décadas, famílias deixaram o campo em busca de trabalho, renda, educação e saúde nos centros urbanos, deslocando sobretudo os mais jovens. Esse processo não se explica exclusivamente pela ausência de tecnologia, já que a migração rural se relaciona a fatores econômicos, sociais e territoriais mais amplos. Ainda assim, produz consequência determinante para o debate tecnológico: quanto mais uma comunidade perde população, infraestrutura e oportunidades, mais complexa se torna a construção de novas redes de conhecimento e inovação. O êxodo rural, nesse sentido, não é apenas consequência da falta de tecnologia, mas também uma das causas que dificultam sua chegada futura, num ciclo em que o esvaziamento do campo enfraquece as condições sociais necessárias para que a inovação se enraíze.


A chamada defasagem tecnológica não deve ser interpretada como simples desinteresse do produtor em se modernizar. Impõe-se perguntar se houve acesso à tecnologia, recursos para adquiri-la, assistência técnica, capacitação e infraestrutura adequadas. Tais indagações revelam que a distância tecnológica está entrelaçada à mesma distância social e territorial que impulsiona o deslocamento das famílias para as cidades.


Considere-se uma comunidade rural distante dos grandes centros urbanos: se a conexão de internet é limitada, a assistência técnica é escassa e o produtor não teve oportunidade de aprender a utilizar a ferramenta, sua mera existência não garante inovação. A tecnologia chegou, mas a inovação, em sentido pleno, ainda não necessariamente alcançou o produtor. Esse é um dos pontos que aproximam a pesquisa da UFV do projeto "O Produtor do Futuro", da UFLA, que busca compreender o perfil tecnológico e os fatores associados à adoção de tecnologias digitais por pequenos e médios produtores.


A proposta parte do reconhecimento de que a agricultura digital possui potencial para contribuir com a competitividade do agronegócio, embora sua adoção ainda encontre obstáculos de custo e complexidade. A pesquisa promove, assim, um deslocamento na perspectiva tradicional sobre inovação: em vez de indagar apenas qual tecnologia deve ser desenvolvida, passa-se a questionar quais condições o produtor precisa reunir para adotá-la. Um estudo mais recente da UFLA, vinculado a essa linha de investigação, analisou produtores de café considerados inovadores e identificou benefícios percebidos nas tecnologias digitais, como eficiência operacional e acesso à informação, ao lado de barreiras como conectividade limitada e escassez de mão de obra qualificada. O resultado evidencia que mesmo produtores inovadores necessitam de condições adequadas, condições que se deterioram justamente nas comunidades mais afetadas pelo esvaziamento populacional.


A pesquisa da UFV e os estudos da UFLA, embora dediquem-se a tecnologias distintas, convergem para um mesmo ponto: a tecnologia não opera isoladamente. Para a irrigação, exigem-se água, infraestrutura e conhecimento técnico; para as tecnologias digitais, exigem-se conectividade, capacitação e suporte. Em ambos os casos, permanece uma figura central, o produtor, cuja permanência ou saída do campo determina se essas condições se sustentarão ao longo do tempo.


Quando uma família deixa o campo, não se altera apenas o endereço de seus integrantes: transformam-se também a sucessão das propriedades, a circulação de conhecimentos e a própria dinâmica das comunidades. Discutir o "Produtor do Futuro" significa, assim, discutir o futuro dos territórios rurais e a capacidade desses territórios de reter as pessoas que darão continuidade à produção.


O produtor do futuro não precisa ser, necessariamente, aquele que utiliza as tecnologias mais avançadas, mas aquele que possui condições de conhecer, testar e utilizar as tecnologias que atendam às necessidades de sua propriedade e de sua comunidade. A pesquisa da UFV demonstra como a tecnologia pode ampliar a produção agrícola em uma região de desafios ambientais; a da UFLA ajuda a compreender que a adoção tecnológica depende das condições dos próprios produtores. Juntas, essas investigações revelam que a inovação agrícola não constitui apenas uma questão tecnológica, mas também, e sobretudo, uma questão social, diretamente relacionada à capacidade de conter o êxodo rural. O desafio para a agricultura brasileira reside em criar condições concretas para que a tecnologia alcance também aqueles mais distantes dos grandes centros de inovação, pois o verdadeiro avanço tecnológico não se consuma quando uma nova tecnologia é criada, mas quando ela consegue transformar a realidade de quem permanece no campo.


Referências Bibliográficas


MORAIS, Thacyo Bruno Custódio de. O "Produtor do Futuro": tecnologias digitais e atributos percebidos de inovação. 2025. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2025.


OLIVEIRA, Polyanna Mara de et al. Desenvolvimento de cafeeiros no Norte de Minas Gerais sob dois sistemas de irrigação. Universidade Federal de Viçosa, 2011.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS. O Produtor do Futuro: perfil tecnológico e construção de indicadores de adoção de tecnologias digitais para pequenos e médios produtores. Projeto de pesquisa.

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Os conteúdos dos textos publicados neste blog refletem exclusivamente a opinião dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do Centro de Estudos em Mercado e Tecnologias no Agronegócio da Universidade Federal de Lavras (AGRITECH UFLA), da Universidade Federal de Lavras (UFLA) ou das agências de fomento que financiam as pesquisas do AGRITECH UFLA.

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