UFLA participa de missão do Semear Digital na Amazônia e aproxima pesquisa e qualidade de vida no campo

Visitas ao DAT de Breves, à CAFAR e à Embrapa Amazônia Oriental destacaram manejo sustentável, segurança alimentar e oportunidades de cooperação internacional.

Comunidade e comitiva reunidas durante a visita do Semear Digital a Jupatituba, em Breves, no Marajó.
A integração entre tecnologias digitais, manejo sustentável e conhecimentos das comunidades ribeirinhas marcou a participação do professor Paulo Henrique Leme, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), na missão técnica do Semear Digital realizada em setembro de 2026, em Breves e Belém, no Pará. A agenda reuniu pesquisadores brasileiros e integrantes do Comitê Internacional do projeto para acompanhar experiências em campo e discutir caminhos para ampliar os benefícios da inovação aos pequenos e médios produtores.
Representando a UFLA e o Distrito Agrotecnológico (DAT) de Ingaí, em Minas Gerais, Leme acompanhou atividades na comunidade Jupatituba, na Cooperativa da Agricultura Familiar Agroextrativista Regional (CAFAR) e na Embrapa Amazônia Oriental. O contato com as famílias evidenciou como pesquisa, extensão e organização coletiva podem favorecer a incorporação de tecnologias ao cotidiano rural.
Manejo do açaí e tecnologias no cotidiano
Uma das experiências que mais chamaram a atenção foi apresentada por Amiraldo, liderança da comunidade e da associação de produtores de açaí. Durante a visita, ele relatou que sua produção passou de cinco para 30 latas de açaí por semana com a adoção das práticas de manejo. Segundo Leme, o relato foi corroborado pelos especialistas em açaí da Embrapa Amazônia Oriental que acompanhavam a atividade.
Na comunidade, a comitiva conheceu o uso do ManejaTech-Açaí, aplicativo que apoia o inventário e o manejo dos açaizais e permite organizar informações mesmo sem conexão com a internet. Também acompanhou experiências com o Infobee, plataforma de informações voltada à criação de abelhas, e com o manejo de espécies nativas sem ferrão.
De acordo com as informações apresentadas pelos pesquisadores durante a missão e relatadas por Leme, pesquisas e experiências de implementação na região vêm observando ganhos de até 30% na produtividade do açaí associados à polinização por abelhas sem ferrão. A integração dessas atividades reúne possibilidades de produção de mel, melhoria da frutificação e conservação da biodiversidade.

“A tecnologia pode melhorar a qualidade de vida das pessoas, trazer felicidade para as pessoas que adotam a tecnologia”, afirma o professor.
Famílias e aprendizado na comunidade

A participação das famílias também marcou a visita. Mulheres acompanharam as apresentações e as atividades da associação, em um ambiente no qual foi ressaltada a importância de ampliar sua presença nas decisões coletivas. As crianças participaram como aprendizes e demonstraram interesse pelas tecnologias apresentadas, incluindo os equipamentos utilizados pela equipe de pesquisa.
As ações locais contam com a atuação da Embrapa Amazônia Oriental, o apoio da Secretaria de Agricultura de Breves e a colaboração dos pesquisadores e das instituições integrantes do Semear Digital.
O deslocamento pelos rios permitiu observar desafios que atravessam a vida e a produção na região. As distâncias, a logística e as dificuldades de acesso a serviços públicos convivem com a presença de smartphones entre jovens e adultos e de conexões via satélite em algumas moradias ribeirinhas.
Para Leme, essa realidade reforça a necessidade de compreender a transformação digital a partir das condições de cada território. A disponibilidade de equipamentos precisa ser acompanhada de informação, capacitação e relações de confiança que ajudem os produtores a utilizar as ferramentas em suas atividades.
CAFAR conecta produção e segurança alimentar
Na área de terra firme de Breves, no Marajó, a comitiva visitou a Cooperativa da Agricultura Familiar Agroextrativista Regional (CAFAR). No local, conheceu experiências de manejo do açaí, uma horta comunitária e iniciativas que aproximam a produção local das políticas públicas de alimentação.
Foram apresentadas ações vinculadas ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), relacionadas ao abastecimento alimentar e ao fornecimento de alimentos às escolas. A comitiva também conheceu uma cozinha coletiva que, segundo as informações apresentadas no local, produz mais de 1.500 refeições por dia para pessoas em situação de vulnerabilidade na região de Breves.
Com apoio da prefeitura, a estrutura conecta o trabalho dos produtores às necessidades alimentares da população. Para Leme, a experiência evidencia como a organização associativa e cooperativa, articulada às políticas públicas, pode fortalecer a agricultura familiar. A visita complementou as atividades em Jupatituba ao mostrar a capacidade de organizar a produção, acessar mercados institucionais e transformar alimentos cultivados localmente em benefícios para a comunidade.
Experiências que dialogam com as pesquisas da UFLA
Os aprendizados da missão dialogam com as pesquisas da equipe do Agritech UFLA sobre adoção de tecnologias digitais na cafeicultura. Os estudos investigam, entre outros aspectos, o papel do apoio institucional, da confiança e da influência social nas decisões dos produtores. Trabalhos da equipe serão apresentados no ICAS, na Itália, e outros artigos estão em preparação para divulgação em periódicos internacionais.
Na avaliação do professor, a experiência de Breves contribui para refletir sobre as ações em Ingaí e em outros territórios. Quando os produtores encontram apoio para esclarecer dúvidas, experimentar soluções e acompanhar resultados, a tecnologia tem melhores condições de se tornar parte de sua rotina.
Com Édson Bolfe e os demais pesquisadores do Semear Digital, foram discutidos desafios encontrados nos DATs e perspectivas para uma segunda fase do projeto, incluindo a possibilidade de alcançar novos produtores e ampliar as áreas de trabalho.
Diálogo internacional e aproximação com a NASA
A missão proporcionou conversas com integrantes do Comitê Internacional do Semear Digital. Com Fedro Zazueta, da Universidade da Flórida, Leme discutiu as relações entre tecnologias digitais, associativismo e melhoria das condições de vida. Com Ermias Kebreab, da Universidade da Califórnia em Davis, o diálogo abordou a adoção digital. As conversas com Mihai Datcu, do Centro Aeroespacial Alemão, incluíram desafios de adoção e possibilidades de novos projetos envolvendo inteligência artificial e comunicação.
Em conversa com Douglas Morton, pesquisador da NASA, o professor apresentou o Sisfogo, desenvolvido pela UFLA em parceria com o Ibama. O encontro abriu uma articulação inicial para explorar possibilidades de colaboração entre UFLA, Ibama e NASA em pesquisas e iniciativas de inovação voltadas ao manejo do fogo. A aproximação deverá avançar por meio de novas reuniões.

Pesquisa e sustentabilidade na Embrapa
Em Belém, a comitiva foi recebida pelo chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental, Walkymário Lemos, e pela equipe da unidade. A programação incluiu espaços utilizados durante a COP30, em 2025, com visitas a um sistema agroflorestal, ao meliponário e a tecnologias de irrigação desenvolvidas pelos pesquisadores.
As experiências reforçaram a conexão entre diversificação produtiva, conservação ambiental e inovação. “A tecnologia pode caminhar e deve caminhar junto com sustentabilidade e qualidade de vida no campo”, destaca Leme.
Novas gerações em contato com a tecnologia

Crianças acompanham a demonstração do controle de um drone durante as atividades na comunidade.
O Semear Digital é um Centro de Ciência para o Desenvolvimento apoiado pela FAPESP, sediado na Embrapa Agricultura Digital e desenvolvido em parceria com instituições como a UFLA. Por meio de dez Distritos Agrotecnológicos, articula pesquisa, capacitação e soluções digitais voltadas às necessidades de pequenos e médios produtores rurais em diferentes regiões do Brasil.
Fotografias fornecidas por Paulo Henrique Leme.
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