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A construção do gosto como estratégia de valorização territorial no agro

  • Foto do escritor: Milena Santos Silva
    Milena Santos Silva
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

A aprendizagem do consumo pode transformar produtos locais em ativos de desenvolvimento regional, especialmente em contextos nos quais a emergência de novas categorias produtivas desafia critérios estabelecidos de avaliação de qualidade como ocorre no caso dos vinhos de inverno. Este texto deriva da dissertação intitulada (Re)engenharia do Gosto: A adaptação da competência no surgimento de uma nova categoria de vinhos, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Lavras (UFLA.

Historicamente, a inovação no setor agrícola foi concebida sob uma lógica produtivista, centrada na eficiência técnica e no aumento da produtividade. No entanto, à medida que o agronegócio brasileiro passa a disputar mercados orientados pela qualidade e não apenas pelo volume, torna-se evidente que a inovação agronômica, por si só, é insuficiente para garantir a inovação de mercado. Isso porque produtos agrícolas são avaliados não apenas por suas propriedades físico-químicas, mas também por critérios culturais, como repertórios de gosto, expectativas de origem e noções de autenticidade e pertencimento territorial.

Essa questão torna-se especialmente relevante quando a inovação produtiva resulta em bens que desafiam categorias estabelecidas de julgamento, como ocorre com os vinhos de inverno produzidos no Sudeste brasileiro, especialmente em Minas Gerais. A partir da técnica da dupla poda, pesquisadores e produtores passaram a inverter o ciclo da videira, viabilizando a produção de vinhos finos em regiões tropicais historicamente consideradas inadequadas para a vitivinicultura de qualidade.

Nesses casos, o desafio deixa de ser apenas produtivo e passa a ser simbólico: quando o produto confronta associações consolidadas entre qualidade e origem geográfica, o que está em jogo não é apenas sua aceitação comercial, mas a construção de sua legitimidade no mercado

É nesse espaço que o território emerge como um elemento estratégico fundamental. À medida que o consumidor compreende que a qualidade de um vinho está intrinsecamente vinculada a condições edafoclimáticas específicas, como altitude, regime hídrico e amplitude térmica, a origem territorial deixa de ser um mero dado geográfico e passa a operar como evidência de qualidade. O território atua, assim, não apenas como atributo de marketing, mas como um dispositivo de requalificação do julgamento, permitindo que o produto seja avaliado por sua singularidade intrínseca, e não por sua semelhança com padrões externos.

Esse deslocamento cognitivo possui implicações diretas para o desenvolvimento regional. Ao incorporar o território como critério de qualidade, observa-se um aumento na disposição a pagar por produtos de origem, o crescimento do interesse por experiências associadas ao local de produção como o enoturismo e o agroturismo e o fortalecimento da reputação coletiva de regiões emergentes. Consequentemente, ampliam-se as possibilidades de diferenciação em mercados saturados por commodities, nos quais produtos agrícolas inovadores passam a competir por autenticidade, e não apenas por preço. Todavia, a construção desse reconhecimento não ocorre de forma espontânea, dependendo de um conjunto de mediações sociais que incluem narrativas de procedência, experiências sensoriais guiadas, certificações, eventos e iniciativas coletivas de valorização territorial.

Na prática, isso implica que a adoção de novas tecnologias no campo deve ser acompanhada por estratégias consistentes de comunicação, institucionalização e engajamento do consumidor. Não basta alterar o ciclo produtivo, é necessário também promover processos de aprendizagem que permitam ao mercado perceber e interpretar valor nessa nova lógica. A inovação, nesse sentido, não se encerra na colheita, estendendo-se ao modo como o produto é apresentado, interpretado e experienciado.

Esse raciocínio aplica-se transversalmente a outros segmentos, como cafés especiais, queijos artesanais, cacau de origem e azeites, que frequentemente enfrentam a assincronia entre inovação produtiva e inovação de mercado. A introdução de um produto tecnicamente superior pode esbarrar na ausência de critérios culturais que permitam ao consumidor reconhecê-lo como tal.

Ao compreender que o gosto é territorialmente construído e que essa construção pode ser estrategicamente orientada abre espaço para repensar o desenvolvimento agrícola para além da eficiência técnica. Regiões que conseguem articular produção, narrativa e experiência em torno de seus produtos passam a transformar atributos locais em vantagens competitivas duráveis. Mais do que produzir de maneira distinta, trata-se de tornar essa diferença significativa.

Inovar no agro, portanto, configura-se não apenas como uma questão tecnológica, mas como um processo de traduzir práticas agronômicas em qualidades percebidas, ciclos produtivos em histórias de origem e territórios em critérios legítimos de julgamento. Quando tal processo se efetiva, o campo deixa de fornecer apenas insumos para o mercado e passa a produzir valor cultural, convertendo a inovação agrícola em uma estratégia efetiva de desenvolvimento regional.





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Os conteúdos dos textos publicados neste blog refletem exclusivamente a opinião dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do Centro de Estudos em Mercado e Tecnologias no Agronegócio da Universidade Federal de Lavras (AGRITECH UFLA), da Universidade Federal de Lavras (UFLA) ou das agências de fomento que financiam as pesquisas do AGRITECH UFLA.

Departamento de Administração e Economia

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