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Protagonismo feminino no agronegócio

Foto do escritor: Jessica Ferreira Helvécio
Jessica Ferreira Helvécio
13 de out.
5 min de leitura

Cada vez mais, as mulheres vêm ampliando sua participação no agronegócio e ocupando espaços de decisão que envolvem a produção, a gestão das propriedades e a comercialização. Esse movimento pode ser observado em diferentes atividades do campo e também está relacionado à busca por qualificação, ao uso de novas tecnologias e à adoção de práticas que contribuem para aprimorar a produção e a gestão rural. Embora a imagem tradicional do produtor rural ainda esteja frequentemente associada à figura masculina, a realidade das propriedades brasileiras revela uma participação feminina cada vez mais presente. As mulheres atuam em diferentes etapas das atividades agropecuárias, desde a produção e o manejo até a gestão, a busca por qualidade, a comercialização e a definição de estratégias para os negócios.

Segundo o material publicado pela Coffee&Joy, mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas com produção de café no Brasil são dirigidos por mulheres, segundo dados do último Censo Agropecuário do IBGE. Isso representa milhares de propriedades nas quais mulheres participam de decisões relacionadas ao manejo, à qualidade, à colheita, à pós-colheita e às estratégias de mercado. No entanto, a liderança feminina no campo nem sempre aparece formalmente nos registros da propriedade. Muitas mulheres atuam ao lado de seus familiares como esposas, mães, filhas e parceiras, participando da organização, da administração e das atividades produtivas. Embora esse trabalho seja fundamental para o funcionamento das propriedades, nem sempre recebe o reconhecimento correspondente à sua contribuição. Além da atuação cotidiana nas propriedades, diferentes iniciativas vêm contribuindo para ampliar a visibilidade do trabalho realizado pelas mulheres e criar oportunidades de reconhecimento, qualificação e acesso a mercados.

Na cafeicultura, um exemplo é o Florada Premiada, concurso dedicado exclusivamente a mulheres cafeicultoras. Em sua 9ª edição, a iniciativa é promovida pela Rituais Cafés Especiais, do Grupo 3corações, em parceria com a BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais), e é considerada uma das principais iniciativas de reconhecimento da produção de café realizada por mulheres. A participação é gratuita e aberta a produtoras a partir de 18 anos que estejam envolvidas em alguma das etapas da produção, mesmo que não sejam titulares formais da terra ou não possuam cartão de produtor. Dessa forma, o concurso contempla diferentes formas de participação feminina na cafeicultura e amplia a visibilidade de mulheres que contribuem para a atividade. Além do reconhecimento, as participantes podem concorrer a diferentes formas de premiação, que incluem valores financeiros, viagens, bonificações e oportunidades de valorização e comercialização dos lotes. As produtoras que comercializam seus cafés também podem ter suas histórias apresentadas nas embalagens dos produtos, aproximando o trabalho realizado no campo dos consumidores

Na edição de 2026, o concurso prevê ainda a premiação de 200 produtoras, não apenas das primeiras colocadas. A cerimônia de premiação está prevista para ocorrer durante a Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte, aproximando a iniciativa de um dos principais eventos relacionados à cadeia do café no país. Dessa forma, além de reconhecer a qualidade dos cafés produzidos, iniciativas como o Florada Premiada contribuem para dar visibilidade às histórias e às trajetórias das mulheres que estão envolvidas na produção. (Conexão Safra, 2026).

Esse movimento também pode ser observado em outros estados produtores. No Paraná, dados apresentados pelo Sistema FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) mostram um crescimento da participação das mulheres tanto em atividades de capacitação quanto na produção e nos concursos de qualidade. Nos últimos seis anos, 428 das 1.077 pessoas capacitadas em cursos relacionados à cadeia do café eram mulheres, correspondendo a quase 40% do total. Além disso, o número de produtoras capacitadas passou de dez, em 2020, para 158 no ano anterior à publicação (Sistema Faep, 2026). A participação feminina também aparece nos concursos de cafés especiais. No Concurso Café Qualidade Paraná, por exemplo, 32 produtoras chegaram à final em 2024, sendo oito premiadas. Em 2025, foram 48 mulheres entre as finalistas, com nove delas entre as melhores colocadas. Mais do que representar resultados em uma competição, esses números evidenciam a presença das mulheres em uma atividade que envolve conhecimento técnico, cuidado com os processos produtivos e busca pela qualidade. Essa atuação também se estende à gestão e à comercialização. O acompanhamento técnico e gerencial pode auxiliar as produtoras na análise dos custos, na identificação de possibilidades de melhoria e na busca por maior eficiência e rentabilidade. Nesse cenário, qualificação, tecnologia e acesso a mercados aparecem como elementos que podem fortalecer a atuação feminina no agronegócio. A tecnologia, nesse contexto, não se limita a máquinas ou equipamentos: envolve também o acesso à informação, o uso de ferramentas de gestão e a capacidade de transformar conhecimento em decisões aplicadas à realidade da propriedade.

Esse movimento não se restringe à cafeicultura. Na pecuária, a participação feminina e sua atuação na gestão das propriedades também foram temas do 9º Encontro ABCZ Mulher, realizado durante a ExpoGenética, em Uberaba (MG). O encontro reuniu lideranças do setor para debater o protagonismo no campo, o empreendedorismo e a consolidação das mulheres à frente dos negócios pecuários. Entre os pontos destacados esteve a relação entre qualificação técnica, tecnologia e gestão, mostrando como esses elementos podem contribuir para ampliar a participação feminina nas decisões dentro das propriedades rurais.

A realização de encontros, concursos e outras iniciativas voltadas às mulheres ajuda a criar espaços de troca, reconhecimento e visibilidade. Ao mesmo tempo, os dados apresentados pela cafeicultura e os debates na pecuária mostram que essa participação não está limitada a uma única atividade ou região. O agronegócio é construído diariamente por diferentes pessoas, conhecimentos e experiências. Reconhecer o papel das mulheres nesse processo é também reconhecer uma parte importante das transformações que já acontecem no campo. Por trás de uma propriedade, de um produto ou de uma xícara de café, existem decisões, trabalho e histórias que ajudam a movimentar o setor, e, cada vez mais, essas histórias também são protagonizadas por mulheres.

Assim, falar sobre o protagonismo feminino no agronegócio é também reconhecer quem produz, quem administra, quem toma decisões e quem contribui diariamente para construir novas possibilidades para o setor. São diferentes histórias, atividades e trajetórias que, juntas, ajudam a formar o agronegócio brasileiro.

Palavras chave: Mulheres no agronegócio; Liderança feminina; Protagonismo feminino.

REFERÊNCIAS:

PORFÍRIO, Giovanni. Mulheres assumem liderança e gestão de fazendas na pecuária. Giro do Boi, 9 set. 2026. Disponível em: https://girodoboi.canalrural.com.br/pecuaria/mulheres-assumem-lideranca-e-gestao-de-fazendas-na-pecuaria/.

SISTEMA FAEP. Concurso evidencia protagonismo feminino na produção de café especial. Sistema FAEP, 14 set. 2026. Disponível em: https://www.sistemafaep.org.br/concurso-evidencia-protagonismo-feminino-na-producao-de-cafe-especial/

CONEXÃO SAFRA. Mulheres do café podem concorrer a 10 premiações no Florada Premiada. Conexão Safra, 14 set. 2026. Disponível em: https://conexaosafra.com/eventos/mulheres-do-cafe-podem-concorrer-a-10-premiacoes-no-florada-premiada/

SOARES, Laura. Mulheres no café: as produtoras que estão transformando os melhores grãos do Brasil. Coffee & Joy, 4 mar. 2026. Disponível em: Coffee & Joy — Mulheres no café: as produtoras que estão transformando os melhores grãos do Brasil.

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Os conteúdos dos textos publicados neste blog refletem exclusivamente a opinião dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do Centro de Estudos em Mercado e Tecnologias no Agronegócio da Universidade Federal de Lavras (AGRITECH UFLA), da Universidade Federal de Lavras (UFLA) ou das agências de fomento que financiam as pesquisas do AGRITECH UFLA.

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