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Brasil: um país, muitas formas de produzir vinho

  • Foto do escritor: Andressa Paviani
    Andressa Paviani
  • 7 de mai.
  • 4 min de leitura

Falar sobre vinho brasileiro é falar sobre adaptação. Em um país de dimensões continentais, a videira encontrou caminhos muito diferentes para se desenvolver. Em algumas regiões, ela segue o ritmo das estações mais tradicionais; em outras, depende da irrigação para produzir em pleno semiárido; e, em outros territórios, tem seu ciclo reorganizado pela técnica da dupla poda, que permite a colheita no inverno.


Por isso, compreender a vitivinicultura brasileira exige olhar para além de uma única imagem de vinho. O Brasil reúne diferentes formas de produzir uvas e elaborar vinhos, construídas a partir do clima, do território, da tecnologia, da história dos produtores e das escolhas feitas ao longo do tempo. Entre essas formas, destacam-se a vitivinicultura tradicional, a vitivinicultura tropical irrigada e a vitivinicultura de inverno.


A vitivinicultura brasileira se revela em diferentes paisagens: dos vinhedos tradicionais da Serra Gaúcha, representados pelos Vinhos Altos Montes, em Flores da Cunha e Nova Pádua (RS), ao cultivo irrigado no Vale do São Francisco, registrado por Ferdinando de Souza, até os vinhedos de inverno da Vinícola Estrada Real, em Três Corações (MG).
A vitivinicultura brasileira se revela em diferentes paisagens: dos vinhedos tradicionais da Serra Gaúcha, representados pelos Vinhos Altos Montes, em Flores da Cunha e Nova Pádua (RS), ao cultivo irrigado no Vale do São Francisco, registrado por Ferdinando de Souza, até os vinhedos de inverno da Vinícola Estrada Real, em Três Corações (MG).

Vitivinicultura tradicional: onde a história do vinho brasileiro começa


A vitivinicultura tradicional marca o início da produção de vinhos no Brasil e se fortalece, principalmente, no Sul do país, associada à imigração europeia, às vinícolas familiares, às cooperativas e à formação de territórios reconhecidos pela cultura do vinho. É nesse contexto que se constrói a imagem mais conhecida da vitivinicultura brasileira, ligada à Serra Gaúcha, aos espumantes, aos vinhos de mesa e ao consumo cotidiano da bebida.


Nesse modelo, convivem uvas americanas e híbridas, muito usadas na produção de sucos e vinhos de mesa, e uvas viníferas, destinadas aos vinhos finos e espumantes. Essa diversidade permite atender diferentes públicos e mercados, ao mesmo tempo em que mantém viva uma relação histórica entre produção, identidade regional, turismo e modos de vida ligados ao vinho.


Vitivinicultura tropical: quando o semiárido também produz vinho


A vitivinicultura tropical se desenvolve no Vale do São Francisco, especialmente entre Pernambuco e Bahia, em um cenário muito diferente das regiões tradicionalmente associadas ao vinho. Ali, o cultivo da videira depende da irrigação, da luminosidade intensa e do manejo técnico, que permitem controlar o ciclo da planta mesmo em condições de clima quente e seco.


Esse controle possibilita organizar podas e colheitas ao longo do ano, permitindo mais de uma safra anual e garantindo regularidade na produção. Além das uvas de mesa, que têm grande importância econômica para a região, o Vale também produz vinhos tranquilos, espumantes e sucos, mostrando que o semiárido brasileiro construiu uma forma própria de fazer vinho.



Vitivinicultura de inverno: a colheita que mudou o calendário da videira


A vitivinicultura de inverno é uma das experiências mais recentes do vinho brasileiro e se desenvolve a partir da técnica da dupla poda, criada pelo pesquisador Murillo de Albuquerque Regina, junto à Epamig. A técnica reorganiza o ciclo da videira, deslocando a colheita para os meses de inverno, quando as condições climáticas são mais favoráveis à produção de vinhos finos.


Nesse período, a combinação de altitude, dias ensolarados, noites frias e tempo seco favorece uma maturação mais equilibrada das uvas, com melhor concentração de açúcares, acidez e compostos fenólicos. Esses fatores contribuem para a elaboração de vinhos mais estruturados, aromáticos e com maior potencial de qualidade, o que tem permitido a esses rótulos conquistar espaço no mercado e reconhecimento em concursos nacionais e internacionais.


Um convite à descoberta


A vitivinicultura brasileira se constrói a partir da diversidade. Em um mesmo país, convivem formas distintas de produzir vinho, moldadas pelo clima, pelo território, pela técnica e pelas escolhas dos produtores. Essa pluralidade ajuda a explicar por que o vinho brasileiro não pode ser entendido a partir de um único padrão, mas sim como um conjunto de experiências que refletem diferentes realidades.


Para quem consome, isso se traduz em possibilidade. Experimentar um vinho da Serra Gaúcha, um rótulo do Vale do São Francisco ou um vinho de inverno produzido no Sudeste é também uma forma de percorrer o Brasil por meio da taça. É nesse encontro entre lugares, práticas e histórias que o vinho brasileiro se revela, e convida a ser descoberto.


E você, já percorreu esse Brasil do vinho? Que rótulos, regiões ou experiências marcaram a sua trajetória de degustação?

 

Referências Bibliográficas

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). (2019). Viticultura brasileira: panorama e perspectivas. Bento Gonçalves: Embrapa Uva e Vinho.

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). (2023). Vale do São Francisco: fruticultura irrigada, produção e mercados. Petrolina: Embrapa Semiárido.

Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). (2018). Dupla poda na viticultura: fundamentos técnicos e aplicações no Brasil. Caldas: Epamig.

Mello, L. M. R. (2020). Panorama da vitivinicultura brasileira. Revista Brasileira de Viticultura e Enologia, 12(1), 8–23.

Regina, M. A., Carmo, E. L., & Favero, A. C. (2011). Viticultura de inverno no Brasil: bases técnicas, resultados e perspectivas. Revista Brasileira de Fruticultura, 33(4), 1124–1133. https://doi.org/10.1590/S0100-29452011000400001

Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). (2022). Dados e indicadores do setor vitivinícola brasileiro. Bento Gonçalves: Ibravin.




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Os conteúdos dos textos publicados neste blog refletem exclusivamente a opinião dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do Centro de Estudos em Mercado e Tecnologias no Agronegócio da Universidade Federal de Lavras (AGRITECH UFLA), da Universidade Federal de Lavras (UFLA) ou das agências de fomento que financiam as pesquisas do AGRITECH UFLA.

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