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Vinho de inverno: como Minas Gerais transformou o clima em uma oportunidade

Foto do escritor: Gabriela Borges de Paula
Gabriela Borges de Paula
há 3 dias
5 min de leitura

Quando pensamos em vinho brasileiro, é provável que a primeira imagem que venha à cabeça seja a Serra Gaúcha. E não é por acaso. Durante muito tempo, o Sul do Brasil foi o principal território associado à produção de vinhos no país. Mas, enquanto essa tradição se consolidava no Rio Grande do Sul, uma história diferente começava a ser construída em outro canto do Brasil: nas montanhas de Minas Gerais. Hoje, o estado vem ganhando espaço com uma produção que parece desafiar o calendário tradicional da vitivinicultura: os chamados vinhos de inverno. E a história por trás deles começa muito antes de a expressão se tornar conhecida.


A relação do Brasil com as videiras começou ainda no século XVI, com a chegada dos portugueses e das primeiras mudas de variedades europeias. A tentativa parecia simples: trazer para cá uma cultura que já funcionava na Europa. Só que havia um pequeno detalhe: o Brasil não era a Europa. O calor, a umidade e as chuvas dificultavam o desenvolvimento das videiras europeias. A planta até brotava, mas as condições brasileiras não eram exatamente as mais amigáveis para a produção de uvas destinadas à elaboração de vinhos. Foi no final do século XIX, com a chegada de imigrantes italianos ao Sul do país, que a vitivinicultura brasileira encontrou condições mais favoráveis para se desenvolver. O Rio Grande do Sul passou, então, a construir uma tradição que permanece fortemente associada ao vinho brasileiro. Mas Minas Gerais também estava escrevendo sua própria história.


Em 1936, em Caldas, no Sul de Minas, foi instalada uma das primeiras estações experimentais de uva e vinho do Brasil. Pode parecer apenas um detalhe histórico, mas não é. A existência dessa estação mostra que, há quase um século, já havia pesquisadores buscando entender como produzir uvas e vinhos em território mineiro. Décadas de estudos ajudaram a construir o conhecimento que, mais tarde, seria fundamental para uma das principais transformações da vitivinicultura brasileira: a possibilidade de alterar o período de produção da uva. Foi nesse caminho que ganhou destaque o trabalho do pesquisador Murillo de Albuquerque Regina e o desenvolvimento da técnica conhecida como dupla poda. E é aqui que a história começa a ficar realmente interessante.


Normalmente, a videira segue um ciclo relativamente previsível. Ela brota, floresce, desenvolve os cachos, amadurece as uvas e entra novamente em um período de repouso. Em sistemas tradicionais, esse ciclo acompanha as estações do ano: crescimento na primavera, produção no verão e descanso no inverno. A dupla poda muda justamente essa lógica. Depois de uma primeira poda e de uma primeira colheita, realiza-se uma segunda poda na mesma videira, ainda dentro do mesmo ano. Com isso, a planta inicia um novo ciclo produtivo. O resultado? A segunda safra pode amadurecer durante o inverno. E essa mudança de calendário é muito mais importante do que simplesmente colher uvas em uma época diferente.


Minas Gerais possui uma característica que poderia parecer pouco favorável à produção tradicional de uvas para vinho: um clima diferente daquele encontrado nas principais regiões vitivinícolas do Sul do Brasil. Mas a dupla poda permite aproveitar justamente determinadas características do inverno mineiro. Dias ensolarados e secos, combinados com noites mais frias, proporcionam uma grande amplitude térmica entre o dia e a noite. Para a uva, essa combinação pode favorecer a concentração de açúcar, o desenvolvimento da cor e a formação de compostos aromáticos. Ou seja, aquilo que poderia ser encarado simplesmente como uma diferença climática passa a ser utilizado como parte da estratégia de produção. Em vez de tentar fazer Minas produzir vinho como o Sul, a vitivinicultura de inverno encontrou uma maneira de produzir a partir das características do próprio território. E isso ajuda a explicar por que o vinho de inverno pode ser entendido não apenas como uma nova forma de produzir, mas como uma possibilidade de diferenciação.


Durante muito tempo, falar em vinho brasileiro significava pensar principalmente na tradição construída no Rio Grande do Sul. Minas Gerais está construindo outra trajetória. A proposta não é simplesmente reproduzir o modelo de outras regiões produtoras. O vinho de inverno nasce de uma combinação particular entre tecnologia, conhecimento científico, condições climáticas, território e atuação dos produtores. É justamente essa combinação que contribui para a construção de uma identidade própria. O vinho mineiro não precisa ser uma cópia do vinho europeu. Também não precisa ser uma repetição do vinho gaúcho. Ele pode encontrar seu espaço justamente naquilo que o torna diferente.


Mas produzir um vinho diferente é apenas uma parte dessa história. À medida que as vinícolas se desenvolvem, surge outra possibilidade: transformar a produção em uma experiência para quem está do outro lado da garrafa. Em diferentes regiões de Minas Gerais, propriedades e vinícolas vêm começando a explorar o enoturismo, aproximando o consumidor dos vinhedos, da produção e da história por trás dos vinhos. E isso muda a relação com o produto. O visitante não conhece apenas uma garrafa. Ele conhece o lugar onde a uva foi cultivada, entende um pouco do processo e passa a associar o vinho à paisagem, às pessoas e ao território. Para um produto que ainda está construindo reconhecimento no mercado, essa experiência pode ser especialmente importante. Afinal, não se trata apenas de vender vinho. Trata-se também de contar por que aquele vinho é diferente.


Outra etapa importante dessa trajetória está relacionada às Indicações Geográficas (IGs). Uma Indicação Geográfica está ligada à relação entre um produto e o território onde ele é produzido, considerando características, condições e conhecimentos associados àquela região. Para a vitivinicultura mineira, esse tipo de reconhecimento representa mais um passo na construção de identidade e valorização territorial. O vinho deixa de ser apenas um produto feito em determinado lugar e passa a carregar, de forma mais evidente, a história e as características daquele território. E essa construção não acontece de uma hora para outra. Ela depende de pesquisa, produtores, instituições, organização, conhecimento e, principalmente, de um mercado que ainda está descobrindo esse novo capítulo do vinho brasileiro.


Talvez essa seja a parte mais interessante de toda essa história. A vitivinicultura de inverno em Minas Gerais ainda é relativamente jovem quando comparada à tradição construída em regiões produtoras mais consolidadas. Por isso, ainda existe muito espaço para crescimento, experimentação e construção de mercado. Os produtores precisam mostrar seus vinhos. As regiões precisam fortalecer sua identidade. O consumidor precisa conhecer e experimentar. E o setor precisa continuar entendendo quais são suas oportunidades e seus desafios. É justamente por isso que olhar para a vitivinicultura mineira vai muito além de perguntar se é possível produzir vinho em Minas. A pergunta agora é outra: como transformar essa capacidade de produção em uma atividade cada vez mais reconhecida, diferenciada e competitiva?


A história do vinho de inverno mineiro é, de certa forma, uma história sobre olhar para um problema e enxergar uma possibilidade. Se o clima não seguia exatamente o calendário tradicional da vitivinicultura, por que não adaptar o calendário? Se Minas não tinha a mesma tradição do Sul, por que não construir uma identidade própria? Se o vinho precisava ser conhecido, por que não levar o consumidor até o território onde ele é produzido? Da pesquisa científica aos produtores, das vinícolas ao enoturismo, das características do clima ao reconhecimento territorial, diferentes atores vêm participando da construção dessa história. E talvez seja justamente isso que torna o vinho de inverno tão interessante. Ele não nasceu apenas de uma uva diferente. Nasceu da combinação entre conhecimento, território e disposição para fazer diferente.

E, nas montanhas de Minas Gerais, essa história ainda está longe de terminar.

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Os conteúdos dos textos publicados neste blog refletem exclusivamente a opinião dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do Centro de Estudos em Mercado e Tecnologias no Agronegócio da Universidade Federal de Lavras (AGRITECH UFLA), da Universidade Federal de Lavras (UFLA) ou das agências de fomento que financiam as pesquisas do AGRITECH UFLA.

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